CONTO: O SILÊNCIO QUE GRITAVA DENTRO DELA

 CONTO: O SILÊNCIO QUE GRITAVA DENTRO DELA 

Marta nunca foi de muitas palavras. Desde pequena, sua mãe dizia que ela tinha “alma de silêncio”. Preferia observar do que participar, sentir do que dizer. Mas ninguém sabia que dentro dela havia uma tempestade, um mar revolto de palavras que nunca foram ditas.

Na infância, aprendeu que falar demais era perigoso. “Criança quieta vive mais”, repetia sua avó, e Marta acreditava. Engoliu choros, sufocou gritos, calou segredos. O tempo passou, e ela se tornou adulta carregando o peso das palavras que nunca saíram.

Até que um dia, algo mudou.

Foi numa manhã de abril, quando encontrou um caderno velho entre os livros esquecidos na estante da sala. Folheou as páginas e, como se alguém guiava sua mão, começou a escrever. No começo, timidamente. Depois, como se as palavras estivessem presas há anos e, agora, precisassem escapar.

“Sinto falta da menina que fui. Aquela que sonhava sem medo. Aquela que queria ser escritora, mas teve medo de não ser suficiente. 

Aquela que foi silenciada pelo mundo e que, agora, quer gritar.”

As palavras fluíram, e cada página preenchida parecia uma ferida cicatrizando. Marta, pela primeira vez, sentiu que estava se libertando. E então, sem pensar muito, postou um trecho no seu perfil anônimo nas redes sociais.

Não esperava nada.

Mas, no dia seguinte, o texto tinha milhares de curtidas e comentários. Pessoas diziam que se identificavam. Que também carregavam silêncios. Que também tinham palavras guardadas. O que era somente um desabafo se tornou um eco,um grito coletivo de quem nunca se sentiu ouvido.

Marta percebeu que sua voz, por mais baixa que fosse, tinha poder.

E, naquele instante, decidiu nunca mais se calar.

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