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Confissões Entre Silêncios capitulo 17

Confissões Entre Silêncios 6 de junho de 2025 – sexta-feira, dia de Liz Hoje é meu aniversário. Vinte e nove voltas completas ao redor do sol… e dessa vez, foi o coração que deu a volta mais difícil de todas. Não teve festa. Não teve bolo cheio de velas. Teve silêncio, oração, lembrança  e uma paz diferente. Do tipo que não vem embrulhada com laço, mas que Deus entrega direto na alma da gente. Acordei cedo. Antes do barulho do mundo. Fiquei olhando o céu, tentando entender como ainda estou aqui depois de tudo. Depois de tantas perdas, tantas feridas, tantos dias em que eu achei que não suportaria o peso de mim. E estou. De pé. Machucada, sim. Mas de pé. Minha mãe me abraçou logo cedo. Foi um abraço longo, doído, cheio de coisas que a gente não sabe dizer em voz alta. Ela tentou sorrir. E eu também. A saudade do meu pai apertou — porque hoje, mais do que nunca, eu queria ouvir ele dizer “parabéns, filha”. Queria aquele olhar orgulhoso que ele tinha mesmo nos dias em que eu achava qu...

Confissões Entre Silêncios capítulo 16

Confissões Entre Silêncios 5 de junho de 2025 – quinta-feira, noite morna, coração em reverência Hoje aconteceu algo que, há semanas, eu não imaginava que teria coragem de viver: voltei à igreja. À Congregação Cristã no Brasil. Não foi uma exigência, nem promessa. Foi desejo. Foi sede. Foi vontade de encontrar Deus em outro lugar além das minhas lágrimas. Tudo começou quando João me convidou, com aquele jeito calmo que ele tem, sem pressão. Disse só: “Se um dia quiser ir, Liz… vai ser bem recebida.” E aquilo ficou martelando em mim. Não era sobre ele. Era sobre mim e sobre algo que eu já sentia há tempos: a necessidade de voltar a escutar Deus não só nas entrelinhas, mas no templo, nos hinos, nas orações baixas, na Palavra. Hoje, depois de tanto pensar, fui. Tremendo. Com medo do julgamento, da vergonha por não ser batizada, por me sentir um pouco fora de lugar. Mas João me esperava no portão. E só o fato dele me olhar com ternura já foi como ouvir “vai em paz”. Entrei devagar, sentei ...

Confissões Entre Silêncios capítulo 15

Confissões Entre Silêncios 3 de junho de 2025 – terça-feira, fim de tarde morno, cheio de ausências e algumas presenças que aquecem Hoje parei pra pensar nas pessoas. Nas que se afastaram. Nas que eu mesma deixei ir, sem forças pra manter qualquer laço. E nas que, mesmo de longe, permaneceram. Nem todo afastamento é por mal. Aprendi isso com o tempo. Tem gente que não sabe lidar com a dor dos outros. Tem gente que some porque a tristeza alheia pesa mais do que estão dispostos a carregar. E tudo bem. Doeu no começo. Mas agora entendo que nem todo mundo tem o chamado de permanecer quando o mundo do outro desaba. Mas também pensei nas que ficaram. Nas que, mesmo em silêncio, estavam ali no dia 14. E principalmente no dia 3. Sim, o dia 3. O velório. O peso daquela manhã. O cheiro da saudade ainda fresca. A voz da minha mãe embargada. E eu, tentando me manter de pé, mesmo com as pernas falhando. Minhas amigas de Serra Bonita vieram. Elas cruzaram caminhos difíceis só pra estar ali comigo. E...

Confissões Entre Silêncios capítulo 14

Confissões Entre Silêncios 2 de junho de 2025 – segunda-feira, céu cinza, mas coração aquecido Hoje o céu amanheceu fechado, mas dentro de mim algo segue iluminado. Talvez seja Deus abrindo clareiras por dentro. Ou talvez seja essa paz que vem quando a gente para de lutar contra a dor e aprende a caminhar com ela, sem deixar que ela conduza. Voltei à universidade. Entrei em sala devagar, com passos firmes e o coração batendo mais forte que o normal. Não por medo mas por reverência à Liz que sobreviveu. A Liz que quase não veio. A Liz que agora está aqui. As colegas me abraçaram com delicadeza, como se soubessem que ainda há feridas em carne viva. E eu senti: estou cercada de amor, mesmo nos lugares que antes me pareciam distantes. Sentei, abri meu caderno e, pela primeira vez desde aquele dia, consegui prestar atenção na aula inteira. Tomei nota, sublinhei palavras, sorri com a professora. Parecia um gesto simples. Mas foi vitória. Na volta pra casa, caminhei devagar. Passei pela praci...

Confissões Entre Silêncios capítulo 13

Confissões Entre Silêncios 1º de junho de 2025 – domingo, manhã serena em Campo Novo Junho chegou com cheiro de café fresco e esperança nova. Senti vontade de levantar antes mesmo do despertador. O sol entrava tímido pela fresta da janela e o vento trazia aquele sussurro que só quem já sofreu em silêncio entende: “vai passar”. Fui à igreja hoje. Sozinha. Sem avisar ninguém. Entrei devagar, sentei num banco do meio e fiquei ali. Não pedi nada. Só agradeci. Agradeci por ainda estar viva, por ainda ter força nas pernas, por ainda sentir a poesia brotar mesmo depois do vendaval. O louvor tocava suave e, quando fechei os olhos, senti como se Deus me abraçasse por dentro. Não disse nada. Só me deixou ali, em paz. E pela primeira vez, não chorei por dor. Chorei por gratidão. Minha mãe me esperava no portão quando voltei. Ela me olhou como se dissesse: “você está voltando.” E eu estou. Não como antes. Mas como alguém que conheceu a dor e escolheu viver com mais fé do que medo. Escrevi outro po...

Confissões Entre Silêncios capítulo 12

Confissões Entre Silêncios 31 de maio de 2025 – sexta-feira, céu limpo, alma em reconstrução Hoje o dia amanheceu bonito. Não sei se foi o céu azul ou o fato de eu ter conseguido dormir uma noite inteira sem acordar com o peito sufocado. Talvez os dois. Talvez seja Deus me mostrando que existe beleza mesmo depois da dor. Levantei cedo, arrumei o quarto, coloquei uma música suave — daquelas que parecem conversar com a alma. Fui à feira com minha mãe. Ela sorriu quando provou o bolo de milho fresco. E eu sorri de volta, com o coração ainda meio apertado, mas pulsando esperança. Porque quando ela sorri, eu entendo que estamos tentando. E Deus está conosco em cada detalhe. Depois do almoço, me sentei sob a sombra do cajueiro e escrevi um poema. Sim, um poema. Pela primeira vez, depois de tudo, as palavras fluíram com leveza. Era sobre raízes, sobre perda, mas também sobre fé. Porque mesmo depois de tudo, eu sei: o que me mantém de pé é essa certeza silenciosa de que Deus me escuta, mesmo q...

Confissões Entre Silêncios capítulo 11

Confissões Entre Silêncios 30 de maio de 2025 – domingo, noite quente e cheia de lembranças A casa está mais quieta do que nunca. Mesmo com gente entrando, saindo, falando baixo pelos cantos… É um silêncio que vem de dentro. Da alma. Do que se perdeu. Hoje à noite, enquanto minha mãe cochilava no sofá, eu sentei no chão do quarto e chorei de novo. Chorei pelo que não disse. Pelo que eu nunca vou ouvir dele de novo. Pelo abraço que não consegui dar na pressa daquele dia. Pelo “fica, pai” que sussurrei tarde demais. Tenho pensado muito no tempo. Como ele passa sem aviso. Como a gente acredita que sempre vai ter mais um domingo. Mais um almoço. Mais um “até amanhã”. E agora eu tenho só o depois. O depois dele. O depois do mundo como eu conhecia. Tem horas em que me bate um desespero mudo. Como se eu não soubesse mais quem sou sem ele aqui. E tem outras em que eu respiro fundo e sinto ele em mim no meu jeito de observar as pessoas, na paciência que ele me ensinou,na forma como eu escuto ma...

Confissões Entre Silêncios capítulo 10

Confissões Entre Silêncios 28 de maio de 2025 – quarta-feira, fim de tarde dourado em Campo Novo Hoje sentei no terreiro e deixei o sol tocar minha pele sem pressa. Fechei os olhos por alguns minutos e, pela primeira vez em muito tempo, não chorei. Só respirei. Só senti. A dor ainda existe, claro. Mas está mais quieta agora. Não grita como antes. Ela virou parte de mim, como uma cicatriz que ainda arde quando o tempo muda, mas não sangra mais. Tenho voltado a sorrir. Sorrisos pequenos, quase ensaiados, mas verdadeiros. Hoje ri com minha mãe quando ela lembrou de uma história do meu pai aquela vez em que ele queimou o arroz e fingiu que era “arroz defumado ao estilo sertanejo”. Rimos de chorar. E choramos rindo. Mas foi bom. Foi leve. Reencontrei minhas amigas de Serra Bonita ontem à noite. Sentamos num banco da praça, comemos pipoca com queijo ralado, e falamos de tudo menos da dor. Foi como reaprender a viver. Reaprender a estar com gente, sem carregar a tristeza como um cartaz pendur...

Confissões Entre Silêncios capítulo 02

Confissões Entre Silêncios 14 de maio de 2025 – quarta-feira, madrugada sem nome O dia 14 chegou rasgando o peito. Acordei me sentindo fora de mim  como se meu corpo estivesse aqui, mas minha alma já soubesse o que viria. Meu pai… meu pai estava pior. Debilitado, cansado, quase não falava. E ainda assim, teimava em não ir ao hospital. Eu insisti com os olhos, com o coração, com tudo que me restava. Mas ele ficou. Fui pra universidade com o coração espremido. Tentando fingir normalidade no meio do caos. Tentei prestar atenção na aula, mas a cabeça estava em casa. O corpo presente e a alma gritando por respostas. No meio da aula, o celular vibrou. Uma ligação. Uma mensagem. Algo nele não estava bem. Eu travei. Depois corri. Saí como uma louca, chorando, empurrada pelo medo mais antigo de todos: o medo da perda. Minha vizinha veio me buscar. No caminho, as lágrimas não davam trégua. Quando cheguei em Campo Novo, tinha muita gente. Gente demais. Eu já sabia. Antes mesmo de alguém dizer...

Confissões Entre Silêncios capítulo 09

Confissões Entre Silêncios 25 de maio de 2025 – domingo, manhã clara depois de dias de sombra Hoje o sol bateu na janela com um pouco mais de força. E pela primeira vez em muitos dias, eu o deixei entrar. Abri a janela. Respirei fundo. Senti o cheiro do mundo lá fora. Não era bonito nem mágico. Mas era vida. E isso já foi muito. Nos últimos dias, tive medo de mim. De afundar tanto que não conseguisse voltar. Mas algo dentro de mim   talvez a memória do sorriso do meu pai, talvez o abraço mudo da minha mãe, talvez os silêncios que João compartilhou comigo  algo começou a empurrar de volta. Não foi rápido. Não foi bonito. Foi lento, doído, como aprender a andar de novo depois de um tombo feio. Mas eu levantei. Hoje eu vesti uma roupa leve. Coloquei um batom cor de terra. Olhei no espelho e vi Liz. Não a Liz de antes, mas a Liz que sobreviveu. Fui até a feira com minha mãe. Compramos coentro, batata-doce, e um pouco de esperança misturada com cheiro de povo. As pessoas ainda...