Confissões Entre Silêncios capítulo 08
Confissões Entre Silêncios
21 de maio de 2025 – quarta-feira, manhã cinzenta em Campo Novo
Hoje o céu amanheceu do jeito que me sinto por dentro: pesado, nublado, quase sem cor.
Acordei antes do sol.
Ou talvez nem tenha dormido direito.
O cansaço já não é só do corpo é da alma.
Fui ao quintal buscar silêncio.
Às vezes, ele é o único que me entende.
Sentei perto do pé de caju que meu pai plantou.
Lembrei dele contando como esperava o tempo certo pra colher, como se cada fruto tivesse o próprio destino.
E agora, eu é que fico aqui esperando o tempo passar…
como quem espera algo voltar, mesmo sabendo que não volta mais.
Minha mãe hoje falou o nome dele em voz alta.
Foi a primeira vez desde aquele dia.
Ela disse: “Teu pai gostava dessa música.”
E colocou uma canção antiga pra tocar.
Ficamos as duas caladas, ouvindo, como se ele estivesse ali com a gente — em cada nota, em cada verso.
João voltou no fim da tarde.
Trouxe bolo de milho e ficou em silêncio comigo, de novo.
A presença dele tem sido um alívio.
Ele não tenta consertar nada.
Só fica.
E isso já é tudo.
As pessoas ainda passam, deixam palavras de conforto, flores, olhares tristes.
E eu agradeço, mesmo sem conseguir dizer muito.
A dor ainda está crua.
Qualquer toque mais firme, corta.
Escrevendo, percebo que estou guardando cada lembrança como quem cuida de um relicário.
Sei que o tempo vai levar algumas memórias embora.
Mas enquanto eu puder escrever, elas continuam vivas.
Meu pai continua vivo.
Hoje escrevo com menos lágrimas.
Mas com o mesmo amor.
E sigo, mesmo trêmula, mesmo ferida.
Porque ele me ensinou que gente forte não é quem não sente.
É quem sente tudo… e ainda assim, continua.
Liz
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